Focinheira obrigatória para cães de grande porte: o que a decisão de Campinas ensina a tutores e petsitters
Campinas aprova em 1ª votação focinheira obrigatória para cães de grande porte. Veja o que muda para tutores e petsitters e como se preparar.

A Câmara Municipal de Campinas (SP) aprovou, em primeira discussão na sessão de segunda-feira (10 de agosto de 2026), um projeto que torna obrigatório o uso de focinheira por cães de grande porte em vias, praças e demais espaços públicos da cidade. A proposta, de autoria do vereador Otto Alejandro (PL), altera o Estatuto de Proteção, Defesa e Controle das Populações de Animais Domésticos do município e prevê multas que podem chegar a mais de R$ 5 mil em caso de ataque a pessoas. O texto ainda precisa passar por uma segunda votação para virar lei, mas já acendeu um debate que interessa diretamente a quem tem um cão grande em casa e a quem trabalha cuidando de pets.
Campinas não está sozinha nesse movimento. Cidades de todo o Brasil vêm endurecendo regras sobre a circulação de cães em espaços públicos, sobre maus-tratos e sobre a guarda responsável. Para além da manchete, o que realmente importa é entender por que essa discussão surge agora, o que a focinheira significa (e o que ela não significa) e, principalmente, como se preparar sem que o animal sofra e sem que o profissional de pet care seja pego de surpresa. É isso que este artigo se propõe a fazer.
O que Campinas aprovou — e o que ainda falta
Segundo o texto em tramitação, seriam considerados de grande porte os cães com mais de 25 quilos ou com altura superior a 50 centímetros na cernelha — o ponto mais alto do dorso, entre as escápulas. Esses animais passariam a ser obrigados a usar focinheira sempre que circulassem em vias, praças e parques públicos.
As penalidades previstas são escalonadas. A infração simples corresponde a 300 UFICs (Unidades Fiscais de Campinas) por animal, o equivalente a cerca de R$ 1.529,88 em valores de 2026. Na reincidência, o valor dobra para 600 UFICs (cerca de R$ 3.059,76) e o cão pode ser recolhido pela Unidade de Vigilância de Zoonoses. Se o animal atacar uma pessoa, a multa sobe para 1.000 UFICs (cerca de R$ 5.099,60), sem prejuízo das responsabilizações civil e criminal do tutor. A fiscalização ficaria a cargo da Guarda Municipal, com denúncias pelo telefone 153, pela Ouvidoria-Geral e pelos canais digitais da prefeitura.
Um ponto essencial: a proposta foi aprovada apenas em primeira discussão. Ela ainda depende de nova votação e de sanção do prefeito para entrar em vigor. Ou seja, hoje ela não obriga ninguém — mas sinaliza uma direção. Na mesma sessão, os vereadores aprovaram em definitivo outra medida, que proíbe pessoas condenadas por maus-tratos a animais de assumir cargos na administração pública municipal.
Por que a focinheira virou pauta nas cidades
O crescimento da população de cães, especialmente de raças de grande porte em áreas urbanas cada vez mais adensadas, colocou a segurança do convívio no centro do debate. Prefeituras e câmaras têm buscado equilibrar dois direitos que às vezes entram em conflito: o direito do tutor de circular com seu animal e o direito das outras pessoas (e de outros animais) à integridade física. A focinheira aparece como uma ferramenta de mediação — imperfeita, mas objetiva.
É importante separar o preconceito do fato. Focinheira não é sinônimo de "cachorro perigoso". Um cão pode ser dócil em casa e reagir de forma imprevisível diante de um susto, de uma dor súbita, de outro cão ou de uma criança correndo. Grande porte significa mais força, e mais força significa maior potencial de dano quando algo dá errado — mesmo sem má intenção do animal. Por isso a régua costuma ser o peso e a altura, e não a raça.
Focinheira não é castigo: para que ela serve
Quando bem escolhida e bem introduzida, a focinheira é um equipamento de segurança, como o cinto no carro. Ela reduz o risco de mordidas em situações de estresse, protege o próprio cão de comer coisas perigosas no chão (iscas envenenadas, ossos de galinha, lixo) e dá tranquilidade ao tutor em ambientes movimentados. O erro está em usá-la como punição, apertada, por horas seguidas ou sem que o animal tenha sido acostumado — aí sim ela vira sofrimento e pode até agravar a reatividade.
O que muda na prática para o TUTOR
Se você tem um cão grande, comece a agir antes de qualquer lei entrar em vigor. A pior hora para colocar uma focinheira pela primeira vez é justamente no momento em que ela passa a ser exigida.
Primeiro, meça e pese seu cão para saber se ele se enquadra no critério de grande porte (mais de 25 kg ou 50 cm de cernelha). Segundo, escolha o modelo certo — para passeios, o ideal é a focinheira tipo cesto (basket), que permite o cão ofegar, beber água e aceitar petiscos. Terceiro, invista tempo em habituação positiva: nunca force o equipamento no focinho do animal de uma vez. Quarto, associe a focinheira sempre a coisas boas (passeio, petisco, brincadeira), nunca a repreensão.
Vale ainda revisar a guia e a coleira/peitoral. Uma focinheira não substitui uma condução segura: cão grande pede equipamento resistente e, em muitos casos, acompanhamento de adestrador para trabalhar reatividade. E lembre-se de que a regra, quando existe, costuma valer para espaços públicos — dentro de casa o animal não precisa (nem deve) ficar focinhado o tempo todo.
O que muda na prática para o PETSITTER, creche e hotel
Para quem trabalha com pets, esse tipo de norma tem impacto direto na rotina e na responsabilidade legal. Um dog walker que passeia com um cão grande sem focinheira, numa cidade onde ela é exigida, pode ser autuado — e a discussão sobre quem paga a multa (tutor ou prestador) tende a cair no seu colo se o contrato não for claro.
Recomendações concretas para o profissional:
Primeiro, mapeie a legislação da sua cidade e das cidades vizinhas onde você atende. Regras de circulação, focinheira e recolhimento variam de município para município. Segundo, inclua no seu termo de responsabilidade e na ficha de cada pet o porte, o peso, o histórico de reatividade e se o animal já usa focinheira. Terceiro, tenha focinheiras tipo cesto de vários tamanhos no seu kit e cobre (ou oriente o tutor a fornecer) o equipamento adequado. Quarto, padronize um protocolo de passeio para cães grandes: guia curta reforçada, peitoral antipuxão, focinheira quando exigido e nunca passear com dois cães grandes reativos ao mesmo tempo sem estrutura.
Do ponto de vista comercial, encare isso como diferencial e não como fardo. Um petsitter que domina condução de cães grandes, sabe habituar à focinheira e comprova segurança se torna referência para um público que tem dificuldade de encontrar quem aceite esses animais. Transforme a exigência legal em argumento de confiança: mostre ao tutor que a sua operação segue a lei e prioriza a segurança de todos.
Como escolher a focinheira certa
Nem toda focinheira serve para passeio. As de nylon, que fecham o focinho, servem apenas para procedimentos rápidos (banho, corte de unha, exame veterinário) e não devem ser usadas em caminhadas, porque impedem o cão de ofegar — a principal forma de o animal regular a temperatura. Para passear, use sempre a tipo cesto, de plástico rígido, biotane ou metal emborrachado, com espaço suficiente para a boca abrir. O tamanho correto permite que o cão respire, beba e pegue petiscos, mas não permite que a focinheira seja retirada com a pata.
Passo a passo para acostumar o cão à focinheira
A habituação leva dias ou semanas, e a pressa é a maior inimiga. Um roteiro simples e eficaz:
Comece apresentando a focinheira parada no chão e recompense o cão por chegar perto e cheirar. Em seguida, coloque um petisco dentro do cesto e deixe que ele enfie o focinho sozinho para pegar, várias vezes, sem fechar a tira. Depois, aumente aos poucos o tempo com o focinho dentro, sempre oferecendo petiscos pelas frontais. Só então feche a tira por poucos segundos e solte antes que ele reclame, repetindo e alongando gradualmente. Por fim, associe a focinheira ao ritual do passeio, colocando-a pouco antes de sair e retirando ao voltar. Se em qualquer etapa o cão tentar tirar, se debater ou congelar, você avançou rápido demais: volte um passo.
Erros comuns e perguntas frequentes
O erro mais frequente é comprar a focinheira errada e testá-la pela primeira vez no dia em que ela é necessária. Outro é apertar demais, achando que "folga é perigo" — na verdade, o cesto precisa de folga para o cão ofegar. Há também quem use focinheira de nylon para caminhadas longas em dias quentes, o que pode levar a superaquecimento.
Focinheira deixa o cão agressivo? Não. Ela não altera o temperamento; mal usada, apenas aumenta o estresse. Meu cão é dócil, preciso mesmo? Onde a lei exige por porte, sim — a exigência é objetiva e não avalia o comportamento individual. Posso deixar a focinheira o dia todo? Não; ela é para o tempo do passeio ou do procedimento. Cão pequeno precisa? Em geral as regras miram grande porte, mas confira a norma local.
Checklist rápido
Para o tutor: meça e pese o cão; confirme a regra da sua cidade; compre focinheira tipo cesto do tamanho certo; faça a habituação positiva por pelo menos uma a duas semanas; revise guia e peitoral; associe sempre a coisas boas.
Para o petsitter/creche/hotel: mapeie a legislação local; registre porte, peso e reatividade na ficha de cada pet; deixe o contrato claro sobre equipamentos e multas; mantenha focinheiras de vários tamanhos no kit; padronize o protocolo de passeio de cães grandes; use o cuidado como diferencial de venda.
Este texto tem caráter informativo e não constitui aconselhamento jurídico. A proposta citada é municipal (Campinas-SP) e, até o fechamento, ainda dependia de nova votação e de sanção para entrar em vigor; regras sobre focinheira, porte e circulação variam de cidade para cidade. Consulte sempre a legislação vigente no seu município e, em caso de dúvida, um profissional habilitado.
Fonte: ACidade ON Campinas
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